Pesquisadores mostram como a irrigação pode potencializar a agricultura familiar

Dados apresentados pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR) mostram que a área de produção no Oeste baiano é de 2,3 milhões de hectare, desses, apenas 170 mil hectares são irrigados. A irrigação é um auxílio fundamental para garantir a segurança alimentar do mundo, pois não restringe o plantio somente no período chuvoso. Entretanto, a prática dessa atividade nas lavouras acaba gerando inúmeras interpretações. O Workshop “Fortalecimento da Agricultura Familiar Irrigada”, realizado nesta quarta-feira, 27, na Fazenda Modelo Paulo Mizote, pôs fim ao mito de que essa prática é inimiga do meio ambiente.

“Boa parte da comida que chega à mesa da população é oriunda da agricultura familiar. Então, é injusto não fortalecer a atividade ou dar a ela condição de produzir mais e o ano inteiro. A irrigação é a única técnica capaz de permitir o aumento da produtividade sem que seja necessário ampliar a área cultivada, mas quando se fala em agricultura irrigada as pessoas associam a algo ruim, por puro desconhecimento. Os sistemas atuais são modernos e ambientalmente sustentáveis”, disse o professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Azis Galvão, que conduziu o painel sobre a experiência na região.

Segundo ele, 60% da agricultura familiar no mundo é irrigada, liderada pela China e pela Índia. No entanto, no Brasil, a atividade ainda é pouco tecnificada. Essa realidade começa a ser mudada, com a implantação de um projeto piloto dentro do campo experimental da Fazenda Modelo. A iniciativa vai beneficiar alunos dos cursos técnicos da “Fazenda-Escola” e pequenos produtores rurais do Perímetro Irrigado Barreiras Norte.

“O pequeno produtor produz somente uma vez por ano e acabou, com esse sistema terá a possibilidade de produzir mais. Com a irrigação não ficamos apenas a mercê das chuvas, saímos daqui com a certeza de que esse projeto pode mudar a realidade de muitas famílias”, afirma o presidente da Associação dos Produtores do Vale do Rio de Janeiro (Aprovele RJ), Jackson Teixeira, um dos beneficiados pela ação.

A iniciativa, que resultou na implantação de um sistema de irrigação por gotejamento e aspersão, é fruto de uma parceria entre o Instituto Aiba (Iaiba), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), o Instituto Water for Food e a multinacional NaanDanJain, referência mundial em irrigação nas modalidades de gotejamento e aspersão.Para o presidente da Aiba e do Instituto Aiba, Celestino Zanella, essa troca de conhecimento e experiências favorece a atuação do produtor, de forma mais precisa e consciente. “Na presença de pesquisadores, autoridades, produtores rurais, dos jovens aprendizes e estudantes de outras instituições podemos mostrar as diferentes técnicas de produção e as diferentes técnicas de irrigação. O objetivo é um só: provar que a agricultura, independentemente da escala, necessita de água para produzir, e como nós vivemos em uma região que sofre muito com veranicos, a necessidade de recorrer à irrigação para assegurar as nossas refeições diárias é real. Contudo, desempenhada de uma forma responsável que garanta também a segurança hídrica”, declarou.

O diretor científico do Instituto Water for Food, da Universidade do Nebraska, Christopher Neale, reiterou a importância da irrigação na produção de alimentos para uma população cada vez mais numerosa. Ele comentou sobre a sua experiência no continente africano, onde pequenos produtores já utilizam pivôs centrais compartilhados com outros agricultores, para otimizar o uso do recurso hídrico e aumentar a produção em grupo.

Fonte: Jornal Nova Fronteira

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Agricultores reivindicam retorno do desconto na conta de luz

Contas de energia elétrica cerca de 8,5% mais caras. É quanto os produtores rurais que usam equipamentos de irrigação para manter as lavouras vão ter que pagar, ainda este ano, caso o decreto que pôs fim aos descontos na conta de luz não seja revogado.

O decreto que acabou com o subsídio nas tarifas de energia elétrica foi publicado em dezembro do ano passado pelo ex-presidente Michel Temer, e entrou em vigor na mesma data. Até então, o subsídio garantia aos agricultores um desconto de 10% a 30% nas tarifas de energia elétrica. O benefício era previsto em lei desde 2002.

“Se o desconto não voltar, nós não teremos como continuar produzindo com irrigação. A última conta de luz que chegou aqui atingiu quase R$ 2.600,00. E nós só ligamos a bomba do poço durante dois dias, para puxar água para o tanque. Assim vamos ter que esperar a chuva”, diz Genivaldo Alves, presidente do Conselho de Agricultores do Distrito Irrigado de Ribeira do Amparo, no Nordeste da Bahia. Na comunidade, a estrutura de irrigação é usada para manter as lavouras de melancia e abóbora cultivadas por 50 famílias.

O fim do benefício preocupa também os agricultores do projeto Formoso, no perímetro irrigado de Bom Jesus da Lapa, no Oeste do estado. Eles mantêm 11 mil hectares plantados na região e são os maiores produtores de banana do país. “Será inviável conduzir a atividade se os custos continuarem subindo. A nossa grande preocupação é com o número de empregos. Os 960 produtores rurais da nossa região geram cerca de 24 mil postos”, aponta o produtor rural Antônio Márcio.

O decreto prevê que os descontos na cobrança da tarifa sejam reduzidos em 20% ao ano, até chegar a zero em 2023. Em cinco anos, o custo com energia pode aumentar em até 43% para os pequenos produtores, a depender do horário de uso da energia.

Audiência

Nessa terça-feira (26/3), o impasse foi tema de uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa da Bahia. O evento reuniu produtores rurais de várias partes da Bahia, representantes de órgãos públicos do setor elétrico e hídrico, sociedade civil e parlamentares. Eles entendem que o decreto prejudica a economia baiana.

“Os custos de produção na agricultora são cada vez maiores. Os descontos são importantes para compensar estes custos. O poder público tem a missão de incentivar a produção, mas este decreto acabou onerando a produção agropecuária”, afirma Jucimara Rodrigues, assessora técnica da Secretaria de Agricultura do Estado (Seagri).

Os agricultores defendem que o retorno do subsídio é essencial não apenas para a atividade agrícola, mas também para a segurança alimentar e para a manutenção do fornecimento de alimentos.

“A tecnologia foi feita para garantir e baratear a produção de alimentos, mas cerca de 51% dos gastos com irrigação são com a energia elétrica. Se continuar assim, a perda do desconto pode inviabilizar a produção de algumas culturas irrigadas”, aponta Hermes Bonfim Neto, engenheiro agrônomo, especialista em irrigação e drenagem.

Segundo ele, a conta é simples. “Até 2006, o agricultor precisava vender 15 sacos de milho para pagar a conta de energia elétrica, em um hectare irrigado. Ano passado, para pagar a fatura ele precisou vender 29 sacos. E caso o desconto não volte até 2023, serão necessários 34 sacos de milho para pagar a conta”, explica Hermes.

Os estudos apontam ainda que o custo da energia elétrica para os produtores rurais aumentou 108% entre 2006 e 2018. Só nos últimos quatro anos as tarifas foram reajustadas em 81%.

Especialistas no setor dizem que o decreto pode provocar um aumento também nos valores dos serviços básicos, como o fornecimento de água, já que o decreto tambem retirou o subsídio oferecido às empresas de água e esgoto.

“A Embasa vai ter que pagar a mais para bombear a água para os consumidores”, destaca Marcelo Nunes Abreu, Superintendente da Secretaria Estadual de Infraestrutura Hídrica e Saneamento.

O impasse já preocupa até as empresas que fornecem energia elétrica.

“É um decreto federal e teremos que cumprir. Mas nos preocupa uma possível consequência no faturamento da energia elétrica, podem surgir dificuldades de pagamento e a elevação dos índices de inadimplência”, afirma Moacir Pina dos Santos, gerente de Regulação da Coelba.

Repasse para o consumidor

Até o fim do ano passado, o subsídio concedido para os agricultores somava um total R$ 3,4 bilhões por ano. O problema, segundo o governo federal, é que este valor era repassado para as contas de luz de todos os consumidores do país, que acabavam pagando a mais para compensar o benefício. A taxa está incluída na CDE (Conta de Desenvolvimento Energético), que vem embutida na conta de luz.

A retirada do benefício para os agricultores significaria, segundo o governo, uma economia de 1% a 2% na conta do consumidor residencial. Segundo cálculos da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), o decreto em vigor eliminaria, pelo menos, R$ 859 milhões nas contas de luz já este ano.

Apesar de reconhecer que os subsídios ficaram muito elevados, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) defende os descontos. A CNA considera o subsídio uma espécie de compensação pelos pela má qualidade do serviço prestado ao setor na zona rural. Entre outros motivos, a confederação alega que a energia fornecida no campo tem baixa qualidade, e que muitas vezes os próprios produtores rurais investem em estrutura para ter acesso ao serviço.

Segundo a CNA, a conta de luz representa até 30% dos custos de produção de alguns segmentos, como os de produção de leite e ovos, que precisam manter equipamentos ligados para garantir a produção.

“É comum ficar 24 horas sem energia, quedas frequentes e até mesmo falta disponibilidade de energia. Em alguns lugares o produtor custeia toda a rede e entrega para o concessionário e paga como se o ativo fosse da empresa. Não é justo recebermos um serviço com qualidade menor e pagar o mesmo preço”, diz Gustavo Goretti, assessor técnico da Comissão Nacional de Irrigação da CNA.

Os representantes dos agricultores na Bahia também defendem que as consequências podem se tornar ainda mais onerosas para o consumidor final.

“Quando os custos de produção aumentam no campo, isso se reflete no bolso do consumidor, porque os preços dos alimentos acabam ficando mais elevados nos supermercados. Isso pesa no orçamento daqueles mais carentes e que mais precisam. Mas não tem como o agricultor segurar sozinho este custo. A cesta básica vai ficar mais cara”, avalia Humberto Miranda, presidente da Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia.

Frente parlamentar

Durante a audiência, os deputados estaduais baianos ligados a Comissão de Agricultura e Pecuária da Assembleia Legislativa, decidiram que irão a Brasília reivindicar a suspensão do decreto. Segundo eles, a medida afeta também unidades públicas de saneamento e irrigação, como os projetos mantidos pela Codevasf, Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco.

“A retirada do subsídio foi um grande erro, que provoca um dano irreversível, principalmente no semiárido baiano. Independentemente de bandeira partidária, este é um problema que atinge todos. Inclusive porque até os órgãos públicos que usam energia elétrica para fornecer água também vão pagar a mais para manter o sistema de bombeamento funcionando. Vamos levar as reivindicações para a Frente Parlamentar da Câmara dos Deputados”, destaca o deputado estadual Eduardo Salles, que convocou a audiência pública.

O decreto prevê a retirada gradual dos descontos levando em consideração classes e faixas de consumidores, de baixa e alta tensão. Mas ambos perderão os descontos sobre a tarifa básica.

“Nós estamos falando de um universo de produção agropecuária que impacta em todos os cenários. Este impacto vai além das áreas irrigadas, atinge mais de 500 estabelecimentos rurais eletrificados que temos no estado, assim como mais de 1.400 agroindústrias familiares da Bahia. Isso não pode acontecer exatamente agora que vínhamos num cenário de ascensão da produção agrícola”, afirma Jeandro Laytynher Ribeiro, chefe de gabinete da Secretaria de Desenvolvimento Rural da Bahia.

Na Bahia existem cerca de 40 mil produtores rurais que mantem plantações irrigadas no estado. Estima-se que eles geram cerca de 630 mil empregos.

Divisão em Brasília

Em Brasília, o decreto agrada alguns ministérios, como o da Economia, mas desagrada outros, como o da Agricultura. Um novo projeto de revogação do decreto e manutenção dos descontos já está tramitando na Câmara dos Deputados.

Fonte: Correio 24 horas

Irrigação compartilhada vai aumentar potencial produtivo de pequenos produtores rurais de Barreiras

O campo experimental da Fazenda Modelo Paulo Mizote agora conta com uma grande novidade: um sistema de irrigação de alta tecnologia, que vai beneficiar não só os alunos da instituição como os pequenos produtores rurais do Perímetro Irrigado Barreiras Norte. O sistema foi implantado graças a uma parceria firmada entre a Aiba, através do Instituto Aiba (Iaiba), que mantém a Fazenda Modelo; a Universidade Federal de Viçosa (UFV) e a multinacional NaanDanJain, referência mundial em irrigação sem a utilização de pivô central. O objetivo é demonstrar a estudantes e agricultores os benefícios da agricultura irrigada, utilizando métodos sustentáveis e economicamente viáveis para pequena produção.

Segundo o engenheiro agrônomo, técnico da NaanDanJain Brasil, Carlos Barth, na lavoura da “fazenda-escola” foram implantados os sistemas de irrigação por aspersão e por gotejamento. As duas modalidades, garante o especialista, atendem perfeitamente a demanda hídrica de áreas de pequeno e médio porte, e são as mais indicadas para lavouras de fruticultura e hortaliças.

“Cada cultura tem uma necessidade diferente. Algumas podem requerer uma maior quantidade de água, então usamos o sistema de aspersão; outras têm uma necessidade mais limitada, aí usamos o gotejamento”, explicou Barth.

Os sistemas foram implantados em uma área de 4 mil m² e serão aproveitados pelos jovens aprendizes do curso de supervisão agrícola, que passaram a ter a disciplina de agricultura de precisão na grade curricular da formação. Além disso, os resultados serão compartilhados com pequenos produtores da agricultura familiar instalados na região, através de um projeto mantido por pesquisadores da UFV, intitulado de “Sustentabilidade da Agricultura Familiar Irrigada no Oeste da Bahia”.

O superintendente do Iaiba, Helmuth Kieckhöfer, ressalta a importância da parceria que resultou nesta iniciativa. Para ele, os bons frutos serão colhidos por toda comunidade. “Este é um modelo piloto e inovador de irrigação compartilhada, o qual eu não tenho dúvida que trará tantos resultados positivos que será copiado muito em breve, ou seja, seremos multiplicadores para outras comunidades. Estamos felizes por encontrar um parceiro que abrace a nossa causa e nos ajude a ampliar o potencial produtivo da região, de forma ambientalmente sustentável”, observa.

De acordo com Barth, a parceria com o Iaiba só foi possível porque o Instituto vai de encontro com o DNA da empresa. “A empresa, com sede na Índia, tem um cunho social muito grande. É de nosso interesse reproduzir esse conceito aqui no Brasil. Por isso não pensamos duas vezes em nos unir a um instituto sério e renomado como o Iaiba, cuja missão se assemelha à nossa”, declara.

Fonte: Jornal Nova Fronteira

Agricultura e ciência: a aposta de produtores de Goiás

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É comum encontrar agricultores que trabalham de forma coletiva – mutirões, associações e cooperativas, grupos de compra de sementes. O Globo Rural mostrou neste domingo (26) produtores que se uniram para fazer pesquisa. Com mais conhecimento, eles colhem ótimos resultados.

Goiás é um imenso campo de grãos. Soja no verão e milho na safrinha se revezam no horizonte da zona rural. O estado é o quarto maior produtor de grãos do país. Quase 10% da produção nacional saiu do estado, na última safra.

A região é conhecida pela tecnologia no campo e altos índices de produtividade, como os da soja na fazenda de Flávio Faedo, em Santa Helena de Goiás. “Nos últimos anos eu tenho conseguido manter a média de 65 sacos por hectare, com picos até de maior produtividade. E o milho safrinha mesmo, que é a segunda safra, a gente vem evoluindo muito com o que a gente vem sabendo de técnicas pra aumentar a produtividade e hoje a gente chega a 150 sacos de milho por hectare na segunda safra”.

São números excelentes. Se explicam por investimentos pesados no campo e conhecimento. O Flávio faz parte de um grupo de 36 produtores que abrem as porteiras e financiam pesquisas independentes.

É uma equipe de estudos coordenada pelo agrônomo Túlio Gonçalo. “Hoje o produtor ele é muito assediado no campo por diversas empresas, diversos produtos diferentes, e é difícil dentro desse assédio você tomar a melhor decisão. A gente toma, mas nunca sabe se tá tomando a melhor decisão”.

Foi dessa inquietação que surgiu um grupo a quase 20 anos: o GAPES – Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano. Pra resolver essa dúvida, essa incerteza de que produto comprar, com tanta oferta no mercado, alguns produtores fizeram uma aposta: fazer os próprios testes, pesquisa independente, e parece que tá dando certo.

Eles começaram pequenos: em 1999, eram 33 mil hectares monitorados, de 24 produtores. Hoje são 36 agricultores e 110 mil hectares espalhados por sete municípios no entorno de Rio Verde, uma das capitais do agronegócio brasileiro. As áreas particulares servem como campo de pesquisa. No dia em que o Globo Rural visitou o Flávio, por exemplo, técnicos do GAPES estavam na lavoura de milho.

O GAPES também investiu em uma sede de pesquisas. Uma área que dá apoio aos testes que já eram feitos em fazendas parceiras. São 53 hectares. Este ano, uma das principais análises foi para ferrugem asiática. “A nível nacional é a principal doença na cultura da soja”, explica o agrônomo do GAPES Túlio Gonçalo.

Fonte: Globo Rural

Irrigação monitora a umidade de mudas e programadores garantem fertilidade

O produtor rural Evando Luiz de Oliveira, 37 anos, migrou para Cristalina (GO), em 2010, a convite de uma empresa para trabalhar com estruturas para cultivo de alface hidropônica. Natural de Biquinhas (MG), ele, que é técnico agrícola, se casou com a gaúcha Magali Spigolon, 38, no ano seguinte, e os dois decidiram investir na produção de tomates grape. Para isso, compraram 1,1 hectare de terra e investiram na construção de 12 estufas.

Além do tomate, são cultivados na propriedade abóbora, cebola, repolho e milho verde. Mesmo com o conhecimento adquirido no mercado e nos cursos realizados, foi somente com o investimento em tecnologia que o casal conseguiu alavancar a produtividade. Além de construir as estufas, criaram um mecanismo de irrigação por gotejamento enterrado no solo até chegar às mudas. Também adquiriram sensores de umidade e de temperatura, um programador automatizado para preparação de adubo e fertilizantes, além de produzir as próprias mudas.

Todo o investimento totalizou R$ 480 mil e os resultados de produtividade foram instantâneos. Oliveira explica que gastava diariamente entre 80 mil e 100 mil litros de água. Com o equipamento que faz a dosagem exata da quantidade por muda, além de apontar a necessidade de insumos, o consumo caiu para 20 mil. “Cada muda recebe diariamente 4,5 litros de água. Por meio da coleta de dados dos sensores, sabemos como está o processo de drenagem, a temperatura, o nível de unicidade e o PH de cada uma delas. Sem os investimentos em tecnologia, não teríamos esses resultados”, conta.

O maior controle da lavoura também contribuiu para redução dos gastos com energia, um dos principais custos de um agricultor. A conta de luz, que chegava a R$ 1,2 mil, caiu para R$ 238. A produção de tomate cresceu 80% e chegou a 80 mil toneladas na última safra. O próximo investimento será para estocar água da chuva. Atualmente, Oliveira mantém apenas caixas-d’água com capacidade para armazenar 20 mil litros. A meta é chegar a 400 mil litros.

Além do aumento da produtividade, o produtor rural passou a economizar com mão de obra. Reduziu o número de empregados de seis para três. Todo o investimento também o ajudou a fazer o controle biológico de pragas, sem uso de defensivos agrícolas na produção dos tomates. “Fazemos duas safras e colhemos o ano inteiro. Nossa meta, agora, é aumentar para 18 o número de estufas. Toda nossa produção é vendida para Goiânia (GO) e Brasília (DF)”, comemora.

Novas fronteiras

A definição do clima em períodos de seca e de chuvas em abundância atraíram para Cristalina pequenos produtores paulistas e sulistas, interessados em explorar novas fronteiras a partir da década de 1970. Nem a deficiência de nutrientes, característica do solo do cerrado, brecou a expansão da agricultura na região. A acidez da terra marrom foi corrigida a partir da década de 1980, por meio de parcerias dos produtores com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Na época, a companhia do governo também passou a desenvolver variedades de grãos que se adaptavam às características da região.

Segundo o diretor executivo da Associação dos Irrigantes do Estado de Goiás (Irrigo) e presidente do Sindicato Rural de Cristalina (SRC), Alécio Maróstica, existe, no município, o cadastro de 152 produtores que irrigam por pivô central, e, em contrapartida, há o quádruplo desse número referente aos que querem irrigar. Ele salienta a importância da irrigação para a produção de alimentos. Estão espalhados por essas propriedades, pelo menos, 736 pivôs. “Em Cristalina, os 62 mil hectares irrigados produzem mais do que os outros 259,2 mil hectares não irrigados. Descobrimos o caminho para a produtividade e agora precisamos garantir o uso da água.”

Maróstica destaca que o uso intensivo de tecnologias levou o município a produzir 50 tipos de atividades ligadas à agricultura e à pecuária. Nas lavouras e pastos da região é possível encontrar gado de corte e leite, além de culturas de soja, milho, algodão, café, feijão, alho, cebola, batata, tomate, morango, cará, abacaxi, batata-doce, abacate, uva, figo, manga, milho doce, trigo e cenoura.

O presidente do SRC detalha que o crescimento da produtividade e a geração de riquezas atraíram a violência. Para enfrentar o problema, os produtores rurais têm investido em segurança. “Os drones também são usados para monitorar o gado, tratores, máquinas e pivôs”, conta.

62 mil 
Total de hectares irrigados em Cristalina

Resultados são potencializados

Cristalina (GO) — O processo de migração de agricultores sulistas para o Centro-Oeste começou na década de 1970 e teve um crescimento significativo nos 10 anos seguintes. O produtor rural Luiz Carlos Figueiredo, 70 anos, natural de Mandaguari (PR), chegou a Cristalina (GO) em 1987, em busca de novas áreas para produção de grãos. A empresa familiar comandada por ele, pelos irmãos, os filhos e sobrinhos é dona de oito propriedades. Quatro em Minas Gerais, duas em Goiás e duas no Paraná. No total, são 20 hectares que se dividem na produção de gado de corte e de leite, além de lavouras de soja, milho, café, feijão, trigo e aveia.
Figueiredo acompanhou de perto a abertura de novas áreas de preparo e correção de solo, o desenvolvimento da tecnologia que possibilitou o uso de sementes adaptadas ao cerrado e o processo de mecanização das lavouras. “Quem não acompanha a inovação tecnológica está fora do mercado. Gastamos para manter a qualidade das lavouras a cada ano e, sem tecnologia, não é possível competir. Para se ter uma ideia, o custo de produção varia entre 40 e 50 sacos de soja por hectare, dependendo da safra”, explica.
Além disso, Figueiredo tem investido no mapeamento de solo por georrefenciamento e por coleta de amostras para analisar o nível de acidez e qualidade. Todo esse processo facilita a semeadura, feita com a ajuda de satélites que traçam o local exato por onde os equipamentos passarão. Além disso, é possível identificar pragas e definir os locais exatos para aplicação de defensivos agrícolas.
Em uma das fazendas em Cristalina, 600 hectares de soja são produzidos com irrigação. A meta é expandir a área de pivôs em mais 1 mil hectares. Para isso, além dos equipamentos analógicos, o produtor pretende adquirir pivôs automatizados, que podem ser ligados e monitorados pelo celular. Os smartphones também ganharam outra aplicação na família de Figueiredo. Acompanhar os trabalhos realizados por meio de câmeras de segurança. Todas as fazendas possuem os equipamentos, pois já foram assaltadas.
O uso de tecnologia não se limita às lavouras. A produção de leite talvez seja a atividade em que há o maior emprego de máquinas e equipamentos para potencializar os resultados do negócio. As vacas holandesas usadas na propriedade têm a seu dispor um ambiente com controle de temperatura para potencializar o processo de extração. A propriedade no município goiano possui 2,1 mil animais, dos quais 980 em lactação.
Por dia, a produção chega a 30 mil litros de leite em três ordenhas. Os animais possuem chips de identificação, monitoramento do animal e controle de produtividade. Sensores espalhados pela área de ordenha fazem todo esse acompanhamento. Outro investimento de Figueiredo é o melhoramento genético para tornar os animais mais longevos. Toda a tecnologia empregada na propriedade levou à conquista de um prêmio por ter a primeira vaca de Goiás a produzir 100 mil litros de leite. “Também investimos em clonagem e temos uma preocupação enorme com o conforto dos animais”, detalha.

Captação

Além de todo o investimento no gado, a fazenda de Figueiredo produz a própria ração dos animais, possui um sistema a captação da água da chuva para irrigação e reaproveitamento na fazenda, e parte das fezes dos animais são transformadas em adubo natural. De olho na redução dos custos de produção, o produtor também resolveu investir na geração de energia solar fotovoltaica. Os 1.150 painéis estão instalados sobre um dos cinco reservatórios de água da fazenda. O projeto custou R$ 2,3 milhões e gera uma economia de R$ 15 mil mensais na conta de luz.
O total de energia gerada é suficiente para atender um terço da propriedade e, caso o projeto se torne viável economicamente, o produtor pretende expandir para outras propriedades. “Investimos para nos manter competitivos e para reduzir os custos de produção”, diz. Os investimentos em energias alternativas não crescem ainda mais no setor rural pela falta de informação e pela escassez de linhas de financiamento para tornar os sistemas mais interessantes.
Fonte: Correio Braziliense