Áreas irrigadas do Oeste baiano podem aumentar em 10 vezes após pesquisa

Um estudo científico desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, e da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, pretende aumentar as áreas irrigadas do Oeste da Bahia em 10 vezes. A pesquisa busca realizar o levantamento do potencial hídrico da região, que abriga boa parte dos 76 mil km² de extensão do Sistema Aquífero Urucuia (SAU), que corta cinco estados brasileiros.

A pesquisa, que está na metade, foi apresentada na última segunda-feira (26) durante o I Seminário Internacional de Pesquisa Científica para Políticas Públicas de Gestão Sustentável dos Recursos Hídricos, realizado no auditório da Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), em Salvador. São mais de 50 pesquisadores envolvidos no estudo, que está em desenvolvimento desde o início de 2016. A previsão para término é fevereiro de 2019.

“Só para a gente ter uma noção do impacto para a região, dos mais de 160 mil hectares irrigados na região, a área tem potencial de crescer no mínimo em 10 vezes, em um curto espaço de tempo. Isso é ainda mais importante quando nós consideramos os últimos seis anos de seca enfrentados pelo estado”, afirmou Vitor Bonfim, secretário estadual da Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura da Bahia. Ainda segundo ele, o seminário é uma oportunidade de “debater o uso múltiplo da água e ter instrumentos para garantir o volume de água para os diversos usos.”

Como resultado da primeira etapa, foi mapeado que as bacias dos rios de Ondas, Fêmea e Rio Grande possuem 17 mil km² de bacias. É estimado que apenas essa parte corresponda a 25% do tamanho de todo o aquífero. Para calcular a área, no entanto, seria necessário descobrir a profundidade, que é estimada em 70 metros. “A capacidade vai depender de diversos outros fatores, como porosidade, capacidade de irrigação, entre outros”, disse José Ulisses Pinheiro, superintendente regional da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM).

A importância econômica do estudo para o Oeste, de acordo com o professor da UFV e pesquisador coordenador do estudo, Everaldo Montovani, é grande. “O Oeste da Bahia tem em torno de 2,3 milhões de hectares plantados. Desses, 160 mil são irrigados. Ou seja, 7% irrigados. A questão é: qual é o limite dessa irrigação? Os produtores, assim como querem crescer mais, produzir mais, ter produtividade, comprar máquina, investir, também querem irrigar mais”, comenta ele.

“Somente os 7% do Oeste que é irrigado gera 25% da renda agrícola do Oeste da Bahia. Então é uma agregação de valor muito grande”, complementa o professor.

Para o presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Celestino Zanella, é possível plantar garantindo água para consumo humano, animal e para a agricultura irrigada. “Nós demos um passo extremamente importante e agora temos que dar o segundo. Já temos dados preliminares da água de superfície e temos que ter mais informações para fazermos o gerenciamento desse processo na água subterrânea. Vamos desenvolver um software [programa de computador] que permite que qualquer pessoa possa ver o volume de água de qualquer bacia”, adianta.

Um quarto do PIB
Na Bahia, a agricultura é responsável por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e ocupa mais de 60 mil hectares irrigados. Em novembro de 2017, no entanto, a geóloga e doutora em Engenharia Ambiental Joana Angélica Guimarães classificou o agronegócio como o vilão do consumo de água do Oeste da Bahia.

O presidente da Aiba discorda do posicionamento. “Todas as pessoas têm direito a serem ignorantes e falarem bobagens. Nós que não podemos mais falar bobagem a respeito de água. Por isso estamos fazendo uma pesquisa séria. Precisamos de conhecimentos claros. Queremos fazer políticas públicas de uso de água para que nós possamos fazer governança clara, participativa e transparente”, defende Celestino Zanella.

Para a realização do estudo, que é financiado pelo Governo da Bahia e conta com apoio da Aiba por meio do Programa de Desenvolvimento da Agropecuária (Prodeagro), R$ 3 milhões já foram utilizados. Outros R$ 3 milhões serão requeridos para a segunda etapa da pesquisa, que irá explorar as águas subterrâneas da região.

“A questão da quantificação do aquífero já está sendo pensada há seis anos, mas está há mais de um ano sendo implantada”, destaca Zanella.

Órgãos de fiscalização, como o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado da Bahia (Inema), ligado à Secretaria estadual do Meio Ambiente (Sema), estão dentro do acordo de cooperação fechado entre diversos atores para a pesquisa na região. A diretora geral do Inema, Márcia Telles, comentou a parceria: “Todos os profissionais estão diretamente envolvidos pela análise dos dados e formam uma equipe técnica com as universidades e o poder público. Essas equipes conversam, fazem as coletas dos dados e, a partir daí, são feitas as equações, os modelos matemáticos e o Inema acompanha de forma consistente todas essas informações. Estamos acompanhando de forma rigorosa todos os conteúdos concluídos”.

Nebraska
Durante o seminário, palestrantes do estado americano de Nebraska palestraram sobre como é feita a governança dos recursos hídricos por lá. Nebraska é a região mais irrigada do país, com uma área de 3,5 milhões de hectares irrigados e utilizando águas subterrâneas. A ideia é entender de que forma o estado faz todos os processos de administração hídrica e irrigação, para replicar o modelo no Oeste baiano.

Todo o Brasil tem apenas 6 milhões de hectares irrigados. Nebraska é do tamanho do Paraná e consegue produzir mais da metade do que todo o país irriga. “O nosso objetivo é descobrir como melhorar a produtividade da agricultura com o melhor uso de recursos hídricos. Como conseguimos produzir mais alimentos com menos águas”, explica Peter McCornick, diretor-executivo do Instituto Water for Food, de Nebraska.

Fonte: Correio 24 horas

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