Nova visão da agricultura das Américas

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Em 15 de janeiro, assumi a direção-geral do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) com um mandato preciso: colocar esta instituição-chave para o desenvolvimento rural do nosso continente num lugar de renovado protagonismo.

A centralidade de temas relacionados com a agricultura na agenda global, que faz desse protagonismo um fato natural e necessário, cria, ainda, para o IICA e, por extensão, a seus 34 estados-membros, uma oportunidade sem igual para o exercício de um papel mobilizador, relevante e construtivo.

Por seus 75 anos de história, o IICA procurou manter inalterável sua missão de apoiar os esforços de seus estados membros no intuito de lograr o desenvolvimento de sua agricultura e o seu bem-estar rural. O meio usado para estender esse respaldo foi o de uma cooperação técnica de excelência.

No entanto, em um mundo afligido e podado pelo deterioramento dos recursos naturais e pelas mudanças climáticas, prosseguir fazendo business as usual deixou de ser uma opção. Se torna imperativo modificar estratégias e condutas para se produzir mais e melhor. Estabelecer novos marcos institucionais com vistas a uma agricultura mais produtiva, inclusiva e resiliente, com a participação ativa de jovens e mulheres, não só é possível, como também deve ser o norte de nossos esforços.

No que diz respeito ao IICA, estamos decididos a contribuir para se deixar para trás a perspectiva errônea de ver o setor agropecuário como extrativista e gerador de bens primários.

Trata-se de uma condição necessária para cumprirmos nossos objetivos com plenitude: superar o olhar limitado que vincula a atividade agrícola à função de mero provedor de matérias-primas para as cadeias globais de valor e trabalhar com uma visão transformadora que permita converter a nossa América em uma grande fábrica de alimentos processados, de bioenergias, de probióticos, nutracêuticos e de biomateriais.

É o momento de se ver a agricultura como a indústria da biomassa e como uma agente central desses novos tempos, atuando em sociedades que desejam ser menos dependentes de recursos fósseis e a caminho de implementar estratégias produtivas climaticamente responsáveis.

Isso é exatamente o que faz a atividade agrícola parte inseparável da solução de problemas urgentes do nosso planeta: a insegurança alimentar e nutricional, e também a crise populacional, energética e ambiental.

Trata-se, em suma, de contribuir para uma industrialização inteligente a partir dos nossos abundantes recursos biológicos, e de promover maior diversidade setorial, competitividade internacional, empregos e a mitigação da mudança climática, apoiados na ciência e tecnologia.

A bioeconomia expressa, em boa medida, essa visão transformadora de promover uma produção sustentável a partir da grande base de recursos naturais que possuímos. Essa mudança de paradigma propõe também um novo protagonismo dos territórios rurais, que devem ser vistos como focos de progresso com novas tecnologias e conectividade, revertendo o estigma que os restringe a zonas geradoras de pobreza e ejetoras de recursos humanos.

Apoiado em uma trajetória frutífera e ininterrupta, o IICA se projeta em direção à construção de um novo futuro em benefício dos agentes e das instituições dos sistemas agroalimentares das Américas. O caminho em direção a seu centenário deve lever o IICA a consolidar-se como um recurso estratégico a serviço dos países, fazendo contribuições substanciais para a transformação da agricultura.

Para isso, será necessária a atualização de seus órgãos de governo, a fim de criar condições para que haja uma ativa participação do setor privado. A instituição também reforçará seu compromisso com os mecanismos de integração sub-regionais e regionais, através da provisão de projetos supranacionais voltados à solução de problemas compartilhados.

Exercerá, assim, um papel de ponte entre o Sistema de Integração Centroamericano, a Comunidade do Caribe, a Organização dos Estados do Caribe Oriental e a Comunidade Andina de Nações, trabalhando estreitamente junto a Canadá, EUA e México e, é claro, ao Mercosul, que, por seu perfil produtivo e tecnológico, tem grandes possibilidades de construir vínculos de complementariedade tanto com a América Central quanto com o Caribe.

Temos tudo o que falta para empreender esse caminho. Seria imperdoável não aproveitarmos a oportunidade.

Diretor Geral do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA)

Fonte: O GLOBO

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