Qualidade na mesa depende da qualidade no campo

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Foto: Divulgação

Por Roberta M. Züge; Membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), Médica Veterinária Doutora, Ceres Qualidade Consultoria e Assessoria.

Para o controle de qualidade de alimentos há especificações técnicas. Entre elas existem os níveis toleráveis. Aqui no Brasil a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) possui o papel de regular e fiscalizar a qualidade dos alimentos comercializados. Há uma Resolução da Diretoria Colegiada, precisamente a RDC 14, de 28 de março de 2014, que estabelece as disposições gerais para avaliar a presença de matérias estranhas macroscópicas e microscópicas, que possam indicar riscos à saúde humana e/ou as indicativas de falhas na aplicação das boas práticas na cadeia produtiva de alimentos e bebidas, e fixar seus limites de tolerância. Estes são as quantidade admitidas de matérias estranhas no alimento. Elas podem varias de fragmentos de insetos a pelos de roedores.

Nestes últimos tempos houve algumas autuações de produtos alimentícios processados que apresentaram níveis acima dos permitidos e foram amplamente divulgados pela mídia. Com isto, muitos consumidores indagaram sobre a possibilidade de aceitarmos estes fragmentos. Para eles, não se deveria existir nenhuma contaminação.

Este pensamento é bastante simplista e demostra o distanciamento que há, dos habitantes das cidades, com as práticas realizadas no campo. Impossível não existir um inseto em uma plantação, o campo é o habitat natural deles, que fazem parte do ecossistema e muitos tem funções específicas e necessárias para um equilíbrio do ambiente. Outro questionamento: mas porque não se retiram todos os fragmentos e pelos no processamento? De fato, em alguns alimentos isto é feito com mais facilidade. As mangas passam por lavagens em água quente e controlada, quando nos referimos a processos adequados de pós-colheita. Mas, aplicar tal técnica a framboesa ou amora seria viável? Estas frutas, bastantes sensíveis, provavelmente se despedaçariam, tornando inviável seu consumo num maravilhoso cheesecake, por exemplo.

No entanto, há meios de se mitigar estes problemas. Já conhecidas são as boas práticas agropecuárias. Elas são um conjunto de procedimentos que estabelecem as ações necessárias para que os produtos agropecuários estejam dentro de critérios de sanidade e qualidade, além da garantia de características organolépticas (cor, sabor, odor e textura).

Na indústria pouco se pode melhorar a matéria prima. Há processos, como a pasteurização, que destroem quase todos os microrganismos. Esta ferramenta é imperativa em lácteos e muitos sucos de frutas, o que amplia o tempo de vida útil do alimento e garante a inocuidade. Por outro lado, difícil é separar as matérias estranhas de muitos produtos, como os fragmentos de insetos e pelos. Assim, o emprego das Boas Práticas Agrícolas são necessárias. Estas que iriam diminuir a contaminação, permitindo uma melhor qualidade da matéria prima para a indústria de alimentos.

Mas, infelizmente, estas práticas não estão disseminadas e nem são valorizadas pelo consumidor. Mercados mais exigentes, como a Itália, e suas maravilhosas compotas, exigem que as propriedades sejam certificadas, no processo de produção integrada, que possui como base as boas práticas agropecuárias. Praticamente não se adentra na indústria matéria-prima não rastreada, que não garanta a qualidade na produção. Este processo pode ser visualizado nas embalagens, que contém um selo, identificando o produto de qualidade ao consumidor.

A produção integrada exige que os controles sejam realizados e os procedimentos especificados, para cultura ou espécie, sejam realizados sistematicamente. Há documentação que comprove a realização das atividades. Assim, controles de roedores são executados, de modo a mitigar a contaminação dos alimentos durante a produção. Do mesmo modo, controle de pragas e substâncias indesejadas, como resíduos de agroquímicos, medicamentos ou contaminações microbiológicas. As ações de controle são realizadas seguindo as prescrições agronômicas ou veterinárias. Uso de medicamentos ou agroquímicos são necessários, mas de forma racional, cumprindo os períodos especificados de intervalo de segurança e proporcionando ao consumidor um produto saudável e de sabor desejado, além de ótima aparência.

Aliás, lendo algumas matérias na internet me deparei com novos produtos, alguns suplementos alimentares que estão sendo consumidos pelos praticantes de musculação: são feitos à base de insetos. Pode-se adquirir por $ 40,00, 200g de Cricket Protein em pó. Eles garantem 100% de grilos na farinha, que pode ser misturada aos alimentos, fornecendo grande quantidade de proteína. No mesmo site, há grilos assados inteiros, ou escorpiões torrados, eles podem vir temperados também. Pelos sites, parece ser um mercado promissor.

Mais preocupante que fragmentos de insetos ou pelos de roedores, que podem ser nojentos, mas dentro das especificações legais da RDC citada, de modo geral são inócuos ao ser humano, o consumidor deveria se preocupar com outras contaminações, principalmente microbiológicas, que podem causar sérias enfermidades. Consumir leite sem procedência, que não tenha o tratamento industrial adequado ainda é um grande problema de saúde pública. Estima-se que 8% dos casos de tuberculose humana, no Brasil, ainda sejam de transmissão vertical, normalmente oriundos de leite e seus derivados, provenientes de animais doentes. Aquele queijinho colonial, feito de leite cru, comprado nas estradas pode significar muito mais problemas que os 10 fragmentos de insetos, naqueles 100g chocolate, que pode vir de brinde também um pelo de roedor, mas que passou por um processamento, com aumento de temperatura, que matou todos os microrganismos patogênicos que poderiam estar presentes.

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