Famílias driblam a seca e investem na plantação de uvas no sertão do PI

Moradores se uniram para cultivar variedade de frutas em plena caatinga.
Sertanejos relatam sucesso da experiência e relembram passado difícil.

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Quem percorre as estradas vicinais cercadas de caatinga até a comunidade Moreira, na zona rural de Dom Inocêncio, no sertão do Piauí, não imagina que ali os moradores estão deixando para trás um dos maiores desafios enfrentados no semiárido: a estiagem. Com uma área irrigada, os moradores apostaram na plantação de uma variedade de uvas e outras frutas.

Antes castigados pelos efeitos da seca, os sertanejos transformaram o lugar e estão conseguindo mudar a realidade das famílias simples que moram na comunidade.

Famílias se uniram para produzir frutas em terreno na comunidade (Foto: Alonso Gomes/Arquivo Pessoal)O novo momento começou a ser vivido em 2013, mas tudo só foi possível graças a um acontecimento que marcou a história da comunidade há 16 anos.

Em 2000, a inundação provocada pela construção da barragem do Jenipapo obrigou os moradores a saírem de suas casas e um novo vilarejo foi construído a cerca de 1 quilômetro do antigo local. Quase duas décadas depois, o cenário do lugar e a rotina dos moradores são outros.

As famílias da comunidade mantém atualmente 11 kits de irrigação que trazem água do represamento da barragem e irrigam uma área de aproximadamente quatro hectares. No local, são produzidas continuamente variedades de uvas, melancia, macaxeira, abacaxi, batata-doce, milho, feijão, tomate, cheiro-verde, cebola e palma. Todas as famílias envolvidas trabalham na área irrigada e dividem juntas os lucros da produção.

Atualmente, a comunidade é autossuficiente no que produz e ainda vende para outras localidades, algumas delas de municípios vizinhos como Capitão Gervásio Oliveira e São João do Piauí. O cultivo das frutas de forma orgânica em pleno semiárido de Dom Inocêncio, que possui um dos menores índices pluviométricos do país, tem deixado para trás uma rotina de dureza antes vivida pelas famílias.

Moradores exibem resultados da produção em área irrigada  (Foto: Alonso Gomes/Arquivo Pessoal)

O agricultor João Marinho dos Santos, 44 anos, conta que tudo mudou depois que as famílias ganharam os kits de irrigação e se uniram para produzir frutas na comunidade. Com apenas a quarta série do ensino fundamental e pai de dois filhos, ele relata que após a inundação não teve como se mudar para a cidade e permaneceu ali. Hoje ele cuida com entusiasmo da área irrigada e diz que muitas dificuldades ficaram no passado.

“A atividade antes era sair com um enxada no braço em busca de um dia de serviço para ganhar algum dinheiro e também pescar na barragem. A mudança do povoado na época da inundação foi um período difícil para muita gente, mas hoje essa atividade aqui ajuda bastante no sustento e eu não quero nem pensar em voltar ao que era antes”, falou.

Outro que também aponta o salto na melhoria de vida dos moradores é Arão da Silva Santos, 54 anos. Proprietário de um barzinho no vilarejo, ele também é bastante engajado no cultivo das variedades e relata que a situação financeira das famílias melhorou de forma significativa. Pai de três filhos, ele destaca a produção de uva como um sonho que muitos jamais esperavam ver realizado na comunidade.

“Depois dessa produção de frutas mudou muito por aqui e aumentou a renda das pessoas. Os R$ 70 do Bolsa Família não são mais a principal fonte de renda da minha família. Hoje a gente come a produção daqui da comunidade e ainda vende. Eu até sonhava com outras coisas produzidas aqui, mas com uva não. Dá pra tirar uma média de R$ 500 por mês, fora o que consumimos”, falou o morador.

O agricultor Raimundo Nonato Santos, 43 anos, é o presidente da associação dos moradores. Pai de um filho, ele fala empolgado da produção que vem mudando a realidade do lugar onde mora. O morador diz que nunca recebeu dinheiro de bolsas do governo e conta que atualmente os benefícios sociais estão em segundo plano na comunidade sertaneja.

Mesmo castigada pela seca, comunidade vem superando dificuldades (Foto: Alonso Gomes/Arquivo Pessoal)

“Hoje em dia está melhorando muito a situação das famílias que vivem aqui. O plantio de melancia, por exemplo, é um dos que tem dado os melhores resultados. Tudo é feito com união entre os moradores e por isso tem dado certo. Além da produção de frutas ainda tem a pesca que muitos praticam. É mais de uma atividade e tudo isso ajuda muito”, falou.

Donas de casa comemoram
A produção na área irrigada da comunidade Moreira fez com que as donas de casa também tivessem um salto nas atividades. Após o início da produção em 2013, elas receberam um curso de culinária apoiado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com a prefeitura do município.

Hoje, elas produzem tortas, vitaminas, sucos, bolos e diversos outros pratos com os produtos cultivados na comunidade. A dona de casa Gicelma Alves da Silva, 26 anos, conta que antes a família vivia da pesca e principalmente de benefícios sociais, mas atualmente lucra com a produção e as receitas proporcionadas pelo cultivo no lugar onde mora.

“Antes a principal fonte de renda era os R$ 184 que recebo do Bolsa Família, mas hoje não é mais. Nós mulheres cuidamos dos canteiros com alface, coentro, tomate e cebola. Essa produção de frutas mudou a renda da minha família e o desenvolvimento do nosso povoado. Eu mesmo não acreditava que isso seria possível nesse lugar seco”, afirmou.

Negócios
Além de consumir e vender para outros lugares, os moradores da comunidade também começaram a fornecer, ainda em pequena escala, para a merenda escolar do município de Dom Inocêncio. Como incentivo, as famílias recebem orientação de profissionais da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) para melhorar os níveis de produção.

Objetivo das famílias expandir ainda mais a produção  (Foto: Alonso Gomes/Arquivo Pessoal)

A área irrigada tem sido o grande destaque do vilarejo de Moreira, mas atividades também já são desenvolvidas nos segmentos da piscicultura e da apicultura. A comunidade é uma das mais distantes da zona urbana, estando localizada a quase 70 km da cidade. Segundo os moradores, o próximo objetivo é adquirir um carro para que eles possam escoar a produção.

Fonte: G1

 

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